Uma travessia para a história. Centenas estrearam hoje a Ponte do Delta

Várias centenas de residentes do território estiveram esta quarta-feira entre os primeiros passageiros que fizeram a travessia da maior ponte do mundo construída sobre o mar. A estrutura recebeu os primeiros carros às nove da manhã, mas a azáfama no novo posto fronteiriço de Macau era elevada ainda muito antes das viaturas se fazerem à estrada.

Agência Lusa

Centenas de pessoas esperaram esta quarta-feira impacientemente no novo posto fronteiriço do território para estrearem a maior travessia do mundo sobre o mar: entre pais, avós e netos, funcionários e polícias, era visível o entusiasmo por poder participar num “momento histórico”.

Há muitas expectativas sobre o que pode mudar com a nova ponte Hong Kong-Zhuhai-Macau. Uns disseram acreditar que a economia da região do Delta do Rio das Pérolas vai crescer exponencialmente e que os preços dos produtos vão baixar. Para outros, o sonho é viver em Macau e trabalhar em Hong Kong ou em Zhuhai. Uma coisa é certa: na região acredita-se que nada vai ser como dantes.

“É um dia histórico para Macau”, declarou à Lusa João Afonso, enquanto esperava que as portas do edifício abrissem para comprar bilhete para Hong Kong e viajar nos três primeiros autocarros que esta manhã iniciaram a ligação na nova ponte.

“Como vivo em Macau e nasci em Macau acho que vai ser um dia muito importante para mim e para esta área da Ásia”, afirmou empolgado João Afonso, confiante que a identidade de Macau não se vai perder com o reforço da aproximação à China. “A identidade de Macau vai perdurar”, apontou.

A fazer lembrar a abertura de um festival ou mesmo de uma ‘Black Friday’ [temporada de compras natalícias com significativas promoções em muitas lojas e armazéns], assim que as portas abriram às 09:00, as pessoas começaram a entrar de forma acelerada e entusiasmada.

Muita gente tirava fotografias para assinalar o momento histórico, esperado há cerca de nove anos: “Eu sou da China, mas vivo em Macau, e para mim este é um momento muito especial porque a abertura desta ponte vai pôr-me mais em contacto com o interior da China”, disse Trang Zhang, de 28 anos, enquanto empunhava o bilhete de ida e volta, de Macau a Hong Kong, pelo qual pagou pouco mais de 13 euros.

Com informações também em português no posto fronteiriço, a viagem de autocarro para a antiga colónia britânica demorou menos de 45 minutos. Durante o percuro, poucos veículos circulavam na mega ponte, numa extensão total de 55 quilómetros: “Saí da minha casa, na Avenida da Amizade [Macau] às 08:50 e cheguei a Hong Kong às 10:15 (…), a ponte fez-me poupar pelo menos uma hora para chegar ao Aeroporto”, explicou à Lusa, durante a viagem, Kavi Kchemlani.

A ligação vai ser assegurada por mais de 200 viagens diárias, a partir de Macau para Hong Kong e Zhuhai. Nas horas de maior movimento, o tempo de espera para apanhar o autocarro rondará os cinco minutos. Fora destes períodos, os autocarros sairão com um intervalo de entre 10 a 15 minutos e de 15 a 30 minutos durante o horário nocturno, entre a meia-noite e as 06:00: “Ao encurtar o tempo entre as três cidades isso vai ter um impacto muito positivo na economia e no turismo”, argumentou o economista que vive em Macau há cerca de 20 anos, acrescentando que para os empresários e para os trabalhadores “vai ser ainda mais importante”.

Contudo, Kavi Kchemlani disse acreditar que Macau “pode perder um pouco do seu charme”: “O que os observadores dizem e pelo que tenho ouvido, a China com esta ponte pode querer ganhar mais controlo e influência tanto em Hong Kong como em Macau”, explicou.

Mas, por outro lado, com maior número de turistas “Macau pode ganhar outro tipo de charme”, acrescentou.

No regresso a Macau, um estudante de marketing em Hong Kong, que se identificou como Chan, referiu que a mega ponte vai ter um impacto muito significativo na sua vida: “Tenho imensos amigos e alguma família em Macau, vai ser muito mais fácil estar com eles. Agora posso simplesmente ir almoçar a Macau e voltar no mesmo dia”.

Chan afirmou que, por enquanto, não tem medo que a China ganhe mais força em Hong Kong, mas admitiu estar “expectante”.

Vários observadores consideraram que o objectivo desta ponte, assim como de uma nova linha ferroviária de alta velocidade que liga Hong Kong a Shenzhen e que foi inaugurada a 22 de Setembro, é aumentar o controlo da China sobre a antiga colónia britânica, que tal como Macau, goza de autonomia alargada, liberdade de expressão e poder judicial independente.

A ponte deverá incutir um impulso importante ao projecto de integração regional da Grande Baía, que visa criar uma metrópole mundial a partir dos territórios de Hong Kong, Macau e nove localidades da província chinesa de Guangdong.

A mega ponte custou aos três governos, cerca de 1,9 mil milhões de euros, de acordo com o jornal de Hong Kong South China Morning Post.

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