Incêndios florestais sufocam a Indonésia

Fotografia: David Cristianto/Unslash

A Indonésia combate, há semanas, incêndios florestais que devastaram vastas áreas de florestas e turfeiras. As deflagrações geraram uma densa nuvem de fumo tóxico que também afecta a Malásia e Singapura. 

O fogo afecta tanto a população, quanto a vida selvagem e levou o governo indonésio a tomar a acções judiciais, suspender licenças e criar uma agência especializada na prevenção deste tipo de desastre.

Entre Janeiro e julho, mais de 202.000 hectares foram devastados pelo fogo, de acordo com dados oficiais. Trata-se de uma área equivalente a quase três vezes o tamanho da capital Jacarta e representa um aumento de 69 por cento em relação ao mesmo período do ano anterior.

As autoridades não actualizaram os números desde então, mas a situação só piorou.  De acordo com o projecto Nusantara Atlas, que utiliza monitorização por satélite, quase 896.000 hectares tinham ardido até ao final de Agosto.

Quais são as causas dos incêndios?

O fenómeno climático El Niño costuma trazer secas à Indonésia e o episódio actual pode ser um dos mais intensos das últimas décadas, segundo especialistas.

No entanto, factores humanos também desempenham um papel, como as queimadas para exploração de terras e décadas de degradação florestal que tornaram a paisagem mais vulnerável ao fogo: “O El Niño não é a causa, mas sim um factor que agrava o problema. É sempre necessário haver algo que provoque o incêndio”, explicou à AFP Ati Dwi Nurhayati, professora de silvicultura da Universidade IPB.  “Sabemos que, nas áreas de turfa, quase 100 por cento dos incêndios são provocados pela actividade humana”, afirmou.

As turfeiras são ecossistemas formados por camadas densas de matéria orgânica. Muitas foram drenadas para fins agrícolas, criando áreas altamente inflamáveis.

Assim que a turfa se incendeia, o fogo pode permanecer latente e reacender-se durante dias, o que dificulta os trabalhos de extinção.

De acordo com a ONG Pantau Gambut, nos primeiros oito meses do ano foram detectados mais de 212 mil focos de incêndio em turfeiras da Indonésia, mais que o dobro do registrado durante o intenso episódio do El Niño de 2015.

Que medidas foram tomadas pelas autoridades?

A Indonésia mobilizou bombeiros e voluntários para as áreas afectadas, embora com resultados limitados. Malásia e Japão também ofereceram ajuda.

As autoridades revogaram as licenças de cinco empresas acusadas de contribuir para os incêndios e suspenderam as de dezenas de outras.

Na semana passada, o presidente, Prabowo Subianto, ordenou a criação de uma agência encarregada de proteger as turfeiras e os mangais, assim como de reforçar a prevenção de incêndios.

A Indonésia tinha criado uma agência semelhante após os incêndios de 2015, que devastaram mais de dois milhões de hectares e causaram prejuízos estimados em 16,1 mil milhões de dólares, de acordo com o Banco Mundial. No entanto, o mandato da organização expirou em 2024 e não foi renovado.

A criação da nova agência gerou cepticismo: “O importante é garantir que o seu mandato responda ao problema da gestão das turfeiras e não se limite a criar uma nova estrutura”, afirmou Putra Saptian, da ONG Pantau Gambut.

 Quais são as consequências?

O Ministério da Saúde da Indonésia informou, na semana passada, que mais de 170 mil casos de doenças respiratórias foram detectados nas províncias de Sumatra e Bornéu, as duas mais afectadas pela densa cortina de fumo.

Os incêndios também atingiram duramente a fauna silvestre. De acordo com um representante do Ministério das Florestas, as autoridades resgataram cerca de 100 animais ameaçados pelas chamas, incluindo 53 orangotangos.

A nuvem de fumo cruzou as fronteiras da Indonésia e afecta especialmente o estado malaio de Sarawak, na ilha do Bornéu, onde escolas tiveram que fechar temporariamente devido à má qualidade do ar.

O fumo também alcançou Singapura e chegou a provocar piores índices de  qualidade do ar em algumas regiões das Filipinas e do sul da Tailândia.

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