A poetisa canadiana Anne Carson foi galardoada, esta quinta-feira , com o Nobel de Literatura por uma obra “audaciosa” que entrelaça heróis mitológicos, autores da Antiguidade clássica e escritores românticos em narrativas modernas sobre o amor, o desejo e a morte.
A escritora, de 76 anos, foi premiada “pela sua obra audaciosa e inovadora que, num diálogo lúdico com a tradição clássica, criou novas formas para a literatura contemporânea”, declarou a Academia Sueca.
A canadiana, que segundo a Academia estava na Islândia “ouvindo o vento” quando soube da notícia, considera uma “loucura” ter ganho o Nobel.: “Loucos. Acho que estão todos loucos (…). Bom, já sabem, é uma loucura”, declarou Carson à emissora pública RUV.
Quase toda a sua obra literária “concentra-se na intersecção entre a obsessão do filólogo pelas palavras e o desejo do poeta de encontrar novos significados”, resume a Academia Sueca.
Esta professora de história e grego antigo, que sofre da doença de Parkinson, leccionou nas renomadas universidades McGill, em Montreal, de Michigan e de Princeton.
Carson é muito conhecida nos meios literários anglo-saxõe e a sua reputação ultrapassou novas fronteiras em 2020, quando conquistou o Prémio Princesa das Astúrias de Literatura pelo seu universo “requintado” e “erudito”.
Entre os seus escritos, destacam-se “Eros, o doce-amargo”, uma adaptação moderna da literatura clássica grega, a “A Beleza do Marido”, que analisa a fundo os tormentos de uma mulher obcecada com as aventuras amorosas do esposo e “Autobiografia do Vermelho”, um romance de ficção em verso.
“Profundo sentimento de perda”
A escritora canadiana é conhecida sobretudo por “Nox”, uma obra inesquecível publicada em 2010 que evoca a memória do seu irmão Michael, que desapareceu misteriosamente antes de morrer na Dinamarca, no ano 2000, explica a Academia do Nobel.
A obra desdobra-se como um acordeão, consistindo numa única folha de vários metros de comprimento: “Nela, percebe-se um profundo sentimento de perda”, resumiu o comité do Nobel.
Anne Carson foi a primeira mulher a receber, em 2001, o prestigioso prémio britânico de poesia T.S. Eliot. Também ganhou o Prémio PEN em 2010 pelas suas traduções.
Nascida em Toronto, a 21 de Junho de 1950, Anne Carson começou a estudar grego graças a um professor de latim que lhe ensinava a língua durante o intervalo do almoço na escola. A poetisa abandonou a universidade duas vezes antes de obter o seu doutorado em Letras Clássicas em Toronto.
O seu nome já figurava há anos nas listas de favoritos ao prémio. Muitos críticos literários tinham previsto que o Nobel seria concedido a uma mulher neste ano.
A Academia Sueca, criticada durante muito tempo por privilegiar autores ocidentais e abalada por um escândalo do movimento #MeToo em 2018, renovou-se completamente. Mais da metade de seus 18 membros foram substituídos. Desde então, uma em cada duas pessoas premiadas é mulher.
No entanto, elas continuam muito sub-representadas: dos 122 premiados, apenas 18 mulheres receberam o prémio. Além disso, apenas uma minoria dos autores laureados escreve em línguas asiáticas ou do Médio Oriente
A temporada do Nobel continua na sexta-feira com a aguardada atribuição do Prémio Nobel da Paz. O Prémio da Economia encerra a temporada Nobel a 12 de Outubro.

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