A primeira investigação conduzida sobre a pintura “Meditação e Estigmatização de São Francisco de Assis”, atribuída a El Greco, apresentou esta quinta-feira uma série de descobertas que permitiriam confirmar que a obra foi realizada pelo mestre originário de Creta entre os séculos XVI e XVII. A pintura foi descoberta há dois anos, em Lima.
Os estudos foram realizados a pedido do Museu Convento São Francisco de Lima, que mantém a obra à sua guarda depois de ter sido descoberta numa loja de antiguidades da capital peruana e ficaram a cargo de uma equipa de especialistas da ONG Wanna Film, que elaborou um estudo académico com os resultados.
A obra mostra São Francisco a contemplar a morte, representada por um crânio, mas, numa das extremidades do fundo, observa-se o mesmo santo em êxtase ao receber os estigmas de Cristo.
Na orla de uma minúscula Bíblia pintada no interior da cena em que São Francisco recebe os estigmas no Monte Alverne, os investigadores identificaram uma microinscrição em árabe, “azANqeis”, que nunca antes tinha sido documentada numa obra deste mestre.
A leitura filológica da inscrição combina a raiz de adhan — o chamamento islâmico para a oração — com “qais”, nome de uma tribo árabe do norte da Península Arábica e do Egipto.
Os investigadores sublinham que esta descoberta não ocorre de forma isolada. A obra reúne, na mesma superfície pictórica, três tradições espirituais que convivem entre si: a formação bizantina e ortodoxa que El Greco recebeu como iconógrafo na sua juventude em Creta, o tema devocional católico de São Francisco de Assis, típico da Espanha da Contrarreforma, e esta inscrição islâmica descoberta no seu interior.
A análise combinou reflectografia infravermelha, fluorescência ultravioleta e análise química de pigmentos, além de um cotejo paleográfico com documentos autógrafos de El Greco conservados no Museu do Prado, em Espanha. Estes estudos confirmaram que não existia um desenho preparatório por baixo e que a pintura foi feita directamente sobre a obra.
Além disso, o tamanho da pintura — 128 por 101 centímetros, mais pequeno do que outras obras de El Greco — seria mais um indício de que foi feita pelo próprio artista, e não por discípulos no seu atelier, dado que costumava desenvolver microdetalhes neste tipo de espaços.
O principal responsável pelo estudo, Fabián Martínez, declarou que “esta descoberta não é apenas uma evidência científica sobre a autoria de uma obra: é uma janela para a forma como El Greco pensava e construía as suas imagens, e com que convicção religiosa o fazia”, argumenta. “É um trabalho que a fé franciscana, a história da arte e a ciência peruana podem partilhar em igual medida”, acrescentou o restaurador.
A obra foi encontrada deteriorada, mas sofreu uma conservação preventiva e, posteriormente, será restaurada, informou Martínez à EFE.
Por sua vez, a historiadora de arte Beatriz Franco comentou que o que mais a comove nesta obra é que “convida a ser observada de perto”: “Quanto mais se aproxima, mais ela revela. Uma Bíblia minúscula, uma inscrição quase invisível, uma mensagem que esteve ali durante séculos à espera de ser lida”, acrescentou a gestora cultural.
Franco explicou à agência EFE que a obra esteve no distrito de Miraflores, em Lima, numa loja de antiguidades em meados do século XX e que, posteriormente, “no âmbito das investigações levadas a cabo pela ONG, foi feita a pesquisa necessária para constatar se a datação coincidia com a de uma obra original de El Greco”.
No âmbito desta investigação, e através de um representante, foi doada ao Museu de São Francisco uma réplica de alta qualidade da obra — uma reprodução exacta do original —, para que o público possa continuar a conhecê-la mesmo depois de o original terminar a sua exposição e voltar a ser guardado num cofre.

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