Murcham as Flores. Primeiro jetfoil do mundo desmantelado em Hong Kong

O FLORES, a primeira embarcação do modelo Jetfoil a ser fabricado pela Boeing e uma peça central no xadrez dos transportes marítimos entre Hong Kong e Macau, começou a ser desmantelado no estaleiro Ocean Shipyard, em Hong Kong.

De acordo com o Grupo de Interesse para a Conservação dos Jetfoils (Jetfoil Conservation Concern Group, no original em língua inglesa,
), quase metade do casco do navio já foi destruído. A ocorrência gerou novos apelos para que as autoridades e a operadora preservem componentes estruturais chave antes que a embarcação desapareça por completo.
Lançado em 1974 sob o nome JETFOIL ONE e com o número de casco 001, a embarcação serviu originalmente como modelo de demonstração da Boeing para apresentar a sua tecnologia a potenciais compradores globais. Entre eles estava o empresário Stanley Ho, fundador da Far East Hydrofoil Co., Ltd. (integrada na Shun Tak Holdings, actual operadora da TurboJET), que transformou a empresa no maior operador mundial de Jetfoils.
O FLORES integra a memória colectiva da região do Delta do Rio da Pérola desde a década de 1970. Comprado em 1978 após ter estado brevemente em operações no Hawai’i, tornou-se o terceiro Jetfoil a entrar ao serviço na rota Hong Kong-Macau, depois dos navios MADEIRA e SANTA MARIA.
Notabilizou-se também por momentos históricos relevantes, como o transporte em 1983 do caixão do comendador Ho Yin de regresso a Macau. Depois de ter sido retirado de circulação em 2008, permaneceu atracado no estaleiro de Lai Chi Kok, conservando de forma única a libré branca integral utilizada nos anos 2000.
O desmantelamento ocorre num contexto de reestruturação da frota de transporte marítimo do Delta do Rio das Pérolas. Apesar de a frota ter atingido o seu auge com 16 embarcações nas décadas de 1980 e 1990 — sendo decisiva para o desenvolvimento do turismo e do sector do jogo em Macau — o volume de passageiros não recuperou para os níveis pré-pandémicos, num cenário agravado pela abertura da Ponte Hong Kong-Zhuhai-Macau. O panorama levou ao  abate de vários navios-gémeos (SÃO JORGE, FUNCHAL, TAIPA, MADEIRA e HORTA) a partir de meados de 2025.
Esta não é a primeira vez que o futuro do FLORES mobiliza a opinião pública, de um e do outro lado do Rio da Pérola. No final de 2020, uma tentativa inicial de desmantelamento foi travada após forte cobertura mediática e oposição social nas duas Regiões Administrativas Especiais. Na altura, a Direcção dos Serviços de Assuntos Marítimos e de Água declarou estar a áacompanhar a situação com atenção, o Conselho Distrital Central e Ocidental de Hong Kong aprovou uma moção para solicitar esforços de conservação e até o departamento de história da Boeing manifestou o desejo de ver preservadas partes significativas do navio.
Apesar de o sistema mecânico do FLORES se encontrar inoperacional devido ao longo período de imobilização a que a embarcacão foi sujeita e à remoção de peças, o grupo de conservação apela à preservação de componentes vitais do navio para que sirvam como testemunho histórico. O grupo sublinha ainda que continuará a defender a preservação e o eventual regresso ao serviço de outros Jetfoils da frota que se encontram em bom estado de conservação e em condições de navegabilidade, lembrando que a tecnologia Jetfoil permanece activa e em desenvolvimento noutros pontos do globo, nomeadamente no Japão.

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