Cerca de 700 obras fotográficas assinadas por mais de 70 artistas, de Man Ray a Annie Leibovitz, permitirão, este Outono, revisitar a história da fotografia, invenção que completa este ano o seu bicentenário. Uma exposição que reúne algumas das imagens mais famosas da história, reunidas por François Pinault, está patente ao público a partir de amanhã no centro de Paris.
Instalado na antiga Bolsa de Comércio, edifício histórico no centro de Paris que actualmente alberga a colecção de arte do bilionário e fundador do grupo Kering, o projecto intitula-se “Remember me” – “Lembra-te de mim” – numa alusão à relação entre a imagem fixa e a memória. A mostra poderá ser visitado de 7 de Outubro a 18 de Janeiro.
A exposição reúne o que de mais notável se fez numa colecção iniciada há duas décadas, composta por mais de 8.000 exemplares fotográficos, incluindo obras-primas como “Derrière la gare Saint-Lazare” (1932), um dos grandes exemplos do conceito de “instante decisivo” de Henri Cartier-Bresson. A colecção integra também aquele que é provavelmente o beijo mais famoso da história, retratado em “Le baiser de l’hôtel de ville” por Robert Doisneau (1950).
Estão também presentes a impactante imagem de um soldado republicano a ser abatido na Guerra Civil Espanhola, captada por Robert Capa (“The Falling Soldier”) em 1936 e aquela que é considerada a foto de moda mais famosa do mundo: a modelo americana Dovima, imortalizada por Richard Avedon entre elefantes.
A Fundação Pinault, no entanto, raramente expôs fotografias, privilegiando habitualmente outras disciplinas artísticas, como a pintura, a escultura ou as instalações. O bicentenário da invenção da fotografia pelo francês Joseph Nicéphore Niépce proporcionou a ocasião para mudar este hábito, como salientou, esta terça-feira, a directora e curadora-geral da colecção, Emma Lavigne: “Num mundo de proliferação de imagens, de suposta desmaterialização da aura, estas imagens continuam a falar-nos, a interpelar-nos”, afirmou a especialista, ao apresentar a exposição à imprensa, na véspera da sua abertura ao público.
A mostra é uma “grande homenagem à fotografia”, observou Matthieu Humery, curador de “Remember me”, mas sem cair excessivamente no didactismo.
Por isso, o percurso inicia-se com duas grandes salas temáticas dedicadas a duas visões muito distintas da fotografia: a do norte-americano Irving Penn e a do francês Raymond Depardon.
Do primeiro, será possível ver na Bolsa de Comércio nada mais, nada menos de 450 exemplares dos seus retratos a preto e branco, as suas naturezas-mortas e as suas fotografias de moda. Os instantâneos estão expostos numa enorme galeria, com uma cenografia impressionante, para ilustrar a dimensão monumental da obra de Penn, repleta de rostos famosos como Al Pacino e John F. Kennedy.
Em contrapartida, a obra de Depardon apresenta-se como uma viagem pela França menos observada: a das esquinas das aldeias e dos talhos de bairro.
Assim, a mostra reflecte sobre a capacidade da câmara se adaptar e servir a arte, antes de se transformar para propor um percurso mais temático, com salas dedicadas à fotografia do mar, ao trabalho em série, à encenação, à presença do corpo e até ao quase desaparecimento da foto como reflexo estrito do mundo, quando os autores apostam em exercícios mais abstratos e metafísicos.
O percurso puramente fotográfico é complementado por uma grande instalação que ocupa a zona central do imponente edifício — a sua famosa Rotunda —, como é habitual nas exposições da Fundação Pinault. Estas instalações tornam-se, normalmente, um dos conteúdos mais “instagramáveis” de cada temporada cultural em Paris e, desta vez, a tarefa coube à norte-americana Barbara Kruger, que aborda a relação entre imagem e texto.
A obra concebida por Kruger, apresentada pela primeira vez nesta exposição, chama-se “The History of Tears” e estende-se pelas paredes e pelo chão da Rotunda sob a forma de citações de textos de George Orwell, Roland Barthes e Aimé Césaire.

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